Nota: O filme estreia dia 19 de Março.
Sinopse: No interior da Argentina, o dom especial de uma menina dá aos seus tutores oportunistas a ideia de oferecer consultas com um médium animal para ganharem a vida.
Recentemente eu participei do curso sobre o cinema Argentino, do qual foi criado pelo Cine Um e ministrado pelo professor Rafael Valles. Durante a atividade se constatou que, tanto o cinema argentino, como também o nosso cinema brasileiro, vive com certas similaridades, assim como também em questões políticas. Neste último caso, por exemplo, os altos e baixos do governo argentino sempre influenciaram o seu cinema como um todo.
O nosso cinema sofreu nas mãos da ditadura, assim como também em tempos de governo Collor e provocando quase a sua extinção. Após esse período turbulento, "Terra Estrangeira" (1995) Walter Salles , foi talvez o melhor título que soube sintetizar a sensação de incerteza com relação ao próprio futuro. "A Mensageira" (2026) talvez venha a se tornar uma representação desse período em que Argentina sofre nas mãos do Presidente Milei e cuja esperança de alguns é explorada pelo oportunismo de outros em tempos turbulentos.
Dirigido por ván Fund, o longa acompanha Anika (Anika Bootz), uma pré-adolescente com o “dom” de se comunicar com animais, vivos e mortos. Em plena crise econômica, seus tutores, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), transformam esse dom em sustento e organizam consultas mediúnicas para tutores de pets enquanto cruzam o interior argentino em uma pequena van numa fronteira delicada entre fé, afeto e oportunismo.
Com uma bela fotografia em preto e branco, o filme é um verdadeiro road movie onde vemos os protagonistas centrais cruzarem o interior de um país afundado em uma crise que faz com que o futuro se torne bastante incerto. Uma vez tendo esse cenário, o filme explora a questão do papel da fé das pessoas, sendo que esse se torna o único elo da civilização contra a barbárie e da qual a maioria evita de chegar nele. A afeição do ser humano com os animais se torna um ponto de fuga para os personagens vistos na tela escaparem de uma realidade sombria e tendo um pingo de esperança ao acreditar que existe algo a mais além dessa vida.
ván Fund procura extrair o melhor desempenho possível de seus respectivos intérpretes, sendo que os mesmos nos brindam com atuações cujo olhar tem muito mais a dizer do que meras palavras soltas ao vento. Tanto Mara Bestelli e Marcelo Subiotto constrói os seus personagens de forma verossímil, ao passar as suas reais intenções com relação à pequena protagonista, mas também não escondendo um certo carinho que ambos sentem por ela. Uma relação ambígua e que faz com que isso cresça ao longo da história.
Já a pequena Anika Bootz surpreende com uma atuação natural sobre no que pode ser ela mesma em cena, ao não forçar ser uma personagem com dons surpreendentes, mas sim nos passando um naturalismo diga-se de passagem. Essa naturalidade faz com que o filme cada vez mais cresça, pois é através desse teor natural que faz com que nos identificamos mais com ela e fazendo do seu possível dom ser recolocado em segundo plano em alguns momentos do longa. Ao mesmo tempo, sua personagem começa aos poucos descobrindo como são feitas as regras do mundo em que ela vive e que nem tudo ela poderá evitar no decorrer de sua cruzada.
No saldo geral, o filme nos passa que a fé move montanhas, mesmo quando ela nasce de uma forma oportunista em tempos turbulentos que faz as pessoas se revelarem como um todo. O filme procura não fazer com que a gente julgue a situação, mas sim fazer a gente crer que o ser humano possa acordar o seu melhor perante um futuro que pode somente restar cinzas com relação a história. O enquadramento final diz bastante isso e sendo mais do que o suficiente para ser conferido.
"A Mensageira" é uma cruzada no interior Argentino, mas que revela o melhor e o pior do indivíduo perante tempos em que a crise financeira está devorando tudo.
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